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  • Fábio Ruiz

Tenho Medo, Toreiro – Chile – 2020



#TengoMiedoTorero é uma brisa de ar fresco na cinematografia mundial, cinema com “C” maiúsculo, faz o que todo filme deveria fazer: contar uma estória interessante, bonita e relevante usando todas as forças ferramentais da sétima arte. O roteiro é de uma precisão ímpar que, sem uma única firula, com uma estrutura narrativa singela, prende o espectador, do início ao fim. Em menos de cinco minutos, o texto estabelece a trama, situando-a no tempo e no espaço, apresenta as personagens principais, e o conflito principal, criando tensões entre a travesti La Loca Del Frente e o guerrilheiro Carlos, sem maniqueísmos, ideologias, ou proselitismos, especialmente os politicamente corretos, lançando mão de personagens muito bem elaboradas, independente do tamanho de suas participações.


O roteiro ilustra a relação inusitada entre a travesti e o guerrilheiro, e sua orgânica evolução, mapeando a homofobia, que açambarcava tanto os militantes da esquerda, os comunistas ou socialistas, quanto as forças militares no poder, que, ambas, segregavam-nos, menosprezavam-nos, e, ao mesmo tempo, usavam-nos, seja para bordar uma toalha ou para esconder armas da guerrilha. O preconceito é latente em ambos os lados, e, inclusive, sem medo de ser feliz, aponta para o cenário tenebroso em Cuba, onde houve campos de concentração e reeducação de homossexuais, para quem até hoje, lá, há demais preconceitos; para o seu suporte financeiro e operacional aos militantes de esquerda em outros países; e para a impossibilidade de algo além de uma amizade entre as protagonistas em tal país. Loca é uma personagem de uma lucidez e franqueza ímpares, típicas de pessoas que são, verdadeiramente, segregadas.


A direção de Rodrigo Sepúlveda, mais experiente em televisão, é incrível, provando que as transposições entre veículos podem ser bem sucedidas, com tomadas, aproximações e distanciamentos demais oportunos, vide a bela e delicadíssima cena de sexo oral, sem nudezes, e com uma condução acuradíssima dos atores, especialmente das protagonistas. Alfredo Castro, a Loca, evidencia a real arte do cinema, um ator heterossexual construindo uma personagem travesti com extrema verosimilhança, melhor até do que a Daniela Vega, de Uma Mulher Fantástica. Leonardo Ortizgris, incrível, entrega personagem conflituosa em enorme dicotomia. O resto do elenco é excelente. Os critérios técnicos entregam a sobriedade e a nebulosidade da época, reconstruindo eximiamente o período retratado, destaque para a bela fotografia.


#TenhoMedoToreiro, um belo filme, um presente para a comunidade LGBTQ, que deveria compreender que ninguém defenderá os seus interesses melhor do que eles mesmos, nenhuma ideologia ou partidarismo, e que, preconceitos, advém de todos os lados atualmente, mais especificamente dos regimes totalitários. Imperdível.