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  • Matheus F.

SOUL - EUA - 2020


Será que deveríamos nos considerar presunçosos, ou minimamente culpados, por sempre associar extrema qualidade aos filmes da Pixar? Talvez o “handicap” que o estúdio estabeleceu para as produções do gênero nos últimos anos os tenham transformado em seus próprios competidores, quase como se não houvessem obstáculos para suas produções que sempre alcançam o panteão das animações.


Soul é mais uma de suas cartadas. Um filme delicado que se aventura em explorar aspectos da vida humana (e além?) propondo questionamentos tão complexos quanto as possibilidades existentes para suas próprias proposições. Uma tentativa de mostrar a pré-vida e o pós morte - assim como Coco fez- transfigurando a abstração existente nesses conceitos em simples metáforas, carregadas por suas personificadas construções.

Parece complexo? E de certa forma é. Acontece que a direção de Pete Docter, o mesmo do espetacular Divertidamente, garante a dose certa de didatismo -assim como ocorreu dentro da cabeça da Riley- na medida em que transpõe a narrativa nesse profundo terreno metafísico e potencialmente assustador, de uma maneira, digamos, colorida?


De toda forma, essas conjecturas todas hão de surgir através do protagonista Joe Garner (dublado por Jamie Fox), um musicista, professor e grande amante do jazz que sonha em abandonar seu emprego regular para viver o sonho de tocar para uma grande banda, mesmo que isso não seja do agrado de sua mãe (dublada por Phylicia Rashad), colocando-o em uma péssima encruzilhada.

Quando as coisas pareciam se acertar, Joe se vê transportado de uma Nova Iorque (que a propósito dispensa elogios ao ser retratada com uma riqueza de detalhes, profundidade e densidade quase como te convidasse a ouvir e sentir esse universo, como um personagem com sua própria personalidade) para um limbo, aquele lugar do antes e do depois da vida, onde encontra com uma alma rebelde chamada 22 (dublada por Tina Fey) que não deseja de forma nenhuma entrar para o mundo dos vivos, assim como Joe deseja desesperadamente voltar para lá.

Soul, assim como outras produções que flertam com profundidades filosóficas, sabe de suas complexidades e paradoxos e talvez por isso seja, dentre as animações mais recentes da Pixar, mais sugestivo que o habitual, deixando as conclusões para os questionamentos levantados em aberto, o que é bom porque acaba por criar uma marca identitária dentro desse nicho ao mesmo tempo em que leva o espectador a uma reflexão mais pessoal, introspectiva e, novamente, delicada.


Sendo aberta, portanto, talvez não seja sobre questionar o que vem antes ou depois de tudo, talvez não seja sobre indagar a respeito nossas escolhas, nossas aspirações e destinações. Não. Talvez, e só talvez, Soul seja uma ode à existência, onde a simplicidade e a delicadeza sejam como chaves de leitura para essa grande arte poética que é a vida.




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