Rose – Áustria – 2026

Analise 1.824

O indicado pela Áustria ao Oscar 2017, já abre a tela com um letreiro que explica o que vem em seguida: “A descrição verídica de uma fraudadora que enganava as pessoas e usurpava terras; embora nascida mulher, ela agia como um homem sob um nome falso e perpetrou inúmeras ações malignas”. Com isso posto e com a magnífica e única Sandra Huller (“Anatomia de uma Queda”,comentado aqui “Zona de Interesse”, aqui e “Toni Erdmann”, aqui ), capitaneando essa história, fica impossível conter a curiosidade e não assistir imediatamente.

Dirigido por Markus Schleinzer, (do doloroso Michael – 2011, comentado aqui) eis um drama histórico muito denso, bastante sombrio que aborda questões de gênero e o domínio do patriarcado dominante e solapante no século XVII em aldeias e vilas no interior da Alemanha e, com um tema desses, ficou perfeita a opção pelo preto e branco em tela e uma direção mais que austera para intensificar a atmosfera opressiva e altamente inquietante que beira o suspense.

Apresentado no Festival de Berlim 2026, Rose, não se trata apenas de uma estória ficcional sobre uma mulher que “resolveu” se passar e viver como homem, - sem ser transgênero, masculinizado nem, tão pouco, homossexual - mas, também, um profundo estudo sobre uma calma sociedade burguesa cristã que pode se tornar violenta e até cruel ao ser desafiada e desacatada em seus arraigados valores e estrutura.

Rose não é um filme fácil e a questão do casamento e a necessária consumação dele para a perpetuação da comunidade é um dos pontos mais tensos e emblemáticos e misteriosos da trama em função da impossível gravidez da esposa e nascimento da criança fruto do improvável (para nós) casal.
A maestria cinematográfica de Schleinzer vista através da monocromática e belíssima fotografia apostando em sombras e luzes e uma edição impecável sustentando o roteiro repleto de comentários políticos e sociais somado a um figurino rústico como a cenografia irretocável e uma trilha sonora “angustiante”, aliadas ao trabalho minimalista e fascinante de Huller consegue, em seus curtos 90 minutos, abranger uma gama infinita e profunda do fator humano versus o conservadorismo tornando-se um trabalho respeitável e digno do impacto que nos causa ainda que, delicadamente, evite explorar a contundência de cenas apelativas.
PS: Aqui sim, já se pode prever um Top Ten e uma provável segunda indicação de Huller para o Oscar de Melhor Atriz.

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