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  • Cardoso Júnior

Retablo- Peru – 2019



O representante do Peru Oscar 2020, que cometeu a proeza de ficar entre os 10 semifinalistas, premiado no Festival de Berlim e carregando uma indicação ao BAFTA 2020, é uma bela estória regional sobre o rito de passagem de um menino inserido numa minúscula comunidade andina estagnada no tempo onde, o roteirista e diretor, Alvaro Delgado- Aparicio, em seu longa de estreia, caminha por terreno árido, pedregoso e bem silencioso para construir uma narrativa que parte do artesanato folclórico peruano, o retábulo, para situar um bonito conto sobre amor paternal e filial.


Com cenografia notável captando os campos andinos e artísticos enquadramentos que geram uma estética pictórica através do contrates entre belas e neutras paisagens em contraponto com as cores vibrantes dos mercados, roupas e festividades, muita das vezes em belos ângulos através de portas e janelas que remetem a obra do título, direção e roteiro esculpem com paciência uma trama que eclode a partir de um olhar inocente e casual que nos pega desprevenidos a ponto de desorientar-nos, assim como o nosso jovem protagonista.

A descoberta da sexualidade através de um vislumbre é um impacto tão grande que joga por terra todo amor e admiração filial misturando-os num angustiante e silencioso embate interno que a câmera de Aparicio nos leva a acompanhar a medida que segue de muito perto o menino e o seu “não saber o que fazer” que nos deixa em suspense até a cena final.


Com interpretações naturalistas dignas de aplausos, principalmente do adolescente, Junior Bejar, no seu primeiro trabalho frente as câmeras, imerso em silêncios, mas transparecendo no olhar a profunda angústia de não ter mais no que acreditar e qual dos inúmeros caminhos deve tomar.

É muito para uma criança assimilar.

Assim, o potente drama familiar gerado pela intolerância arcaica, requer dele e de nós que escolhas sejam feitas, escolhas essas que tanto ele quanto nós não temos nenhuma certeza, ora tendendo para o lado maternal-social, ora para o drama do pai, epicentro da tragédia estabelecida transformando o rito de amadurecimento em algo nitidamente doloroso, mas que, graças a direção, nunca perde seu tom poético.


Portanto, #Retablo, falado em quéchua para fortificar a autenticidade do realismo, é uma bela obra, atual e importante que o verdadeiro cinema nos apresenta e que, lamentavelmente, os grandes estúdios sufocam.




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