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  • Cardoso Júnior

O Beijo no Asfalto – Brasil-2019



A terceira transcrição de uma das peças teatrais mais adaptadas para os palcos de teatro, levada para o cinema, resultaria em algo interessante? Não estaria o polêmico texto da década de 1960 sobre o conservadorismo da sociedade brasileira datado e sem nada mais a dizer para uma nova geração? Não cairia na armadilha de parecer teatro filmado? Perguntas que certamente o diretor Murilo Benício deve ter se feito ao encarar o desafio de reeditar a obra clássica de Nelson Rodrigues outra vez para a telona.

Partindo de uma premissa textual muito simples, o beijo, esse novo roteiro cria um perfeito amalgama entre as duas linguagens (cinematográfica e teatral), adicionando uma interessante camada documental sem alterar a estrutura e o cerne dramático e nem a força de seus subjacentes desdobramentos como a comédia de situação, o grotesco e a ironia do realismo fantástico.

Nos primeiros minutos, uma sensação de que a engrenagem proposta não colocará a estória nos trilhos do interesse do público assalta o expectador, mas genialmente e gradualmente a muito bem costurada montagem vai unificando as camadas de forma tal que, o que parecia ou poderia quebrar o ritmo ou o pico de interesse acaba por acelerá-lo e aumenta-lo continuamente até o final.

Assim, trabalhando dentro dessa metalinguística, #OBeijonoAsfalto que tem o grande acerto de não modernizar a ambientação da ação propiciando-nos um belo trabalho de direção artística e figurinos, ainda acerta outra vez na estética da fotografia em preto e branco e na gravidade da trilha sonora embalando excelentes interpretações com destaque para Otávio Muller.

Portanto, o arrojado roteiro que privilegia o processo criativo e a primorosa direção dilatam enquanto evidenciam a atemporalidade de um texto que expõe situações atualíssimas como a intencional criação de esquemas de notícias falsas por uma imprensa ou pessoas poderosas interessadas apenas em lucros abjetos, a corrupção institucional, a violência policial, o racismo velado, a homofobia enrustida e o sexismo explicito que, através da mobilização do coletivo arruínam e destroem vidas inocentes.

É ver pra crer.



Ps1: Disponível no Canal Brasil e em VOD