logo.png
  • Fábio Ruiz

Mariguella – Brasil – 2020



#Mariguella, escrito por Felipe Braga e Wagner Moura, dirigido pelo último, baseado no livro de Mário Magalhães, abre mão da factualidade para discorrer no terreno das narrativas, comumente vistas no jornalismo brasileiro, narrativas, essas, a serviço de ideologias e, implicitamente, de partidarismos políticos. O texto tenta camuflar a democracia dentro de regimes comunistas, claramente, defendidos pela protagonista, valores nobres em alguém que se declara abertamente terrorista, ações e intenções racistas, quando a personagem real, apesar de interpretada por um ator negro, é parda, quase branca, mas o trecho em destaque, no início da projeção, que diz ser Carlos neto de Senegaleses, chancela a exploração dessa perspectiva.


Também acusa o regime militar de censura, de silenciar o debate, exatamente, como vemos atualmente, mas vindo exatamente daqueles que disso reclamam à época. O texto é uma ode à nobreza dos guerrilheiros e um repúdio à brutalidade das forças de repressão, mas ignora que o momento político, além de contar com apoio massivo do povo, e do “golpe” ter sido uma resposta a ameaças reais de implantação de regime comunista no país, também omite que tais militantes eram financiados, treinados e direcionados pela USSR, especificamente pela KGB, e por Cuba, que os preparavam para as guerrilhas e para o terrorismo, configurando no país um cenário de guerra civil, enquanto exibe abundantemente o apoio do malvado imperialista EUA.


Fatos são que derrotados os militantes de esquerda e afastada a possibilidade de implantação de regime socialista ou comunista no país, os próprios militares promoveram a abertura política e restabeleceram a democracia, como a dos EUA, enquanto na USSR, e em países com regimes similares o povo ainda vive sem liberdades, e, em alguns, é também oprimido. Resta ao espectador se perguntar o porquê de um filme desses, com essas tonalidades, no momento político corrente do país, e tirar suas próprias conclusões.


A direção de Wagner Moura é incipiente, com enquadramentos indistintos, e não preenche lacunas do texto, que também falha na apresentação e construção das personagens que, bastante superficiais, dificultam a interpretação dos atores, que, de maneira geral, está muito fraca, raras as exceções, como Adriana Esteves, que tira sangue de pedra, e faz um belo trabalho. Seu Jorge não acerta nas facetas emocionais da personagem e não evolui mais do que caras e bocas.

Bruno Galiasso, na tentativa de demonizar ainda mais a sua personagem, já feito pelo texto, está demais canastrão, e do elenco coadjuvante poucos se destacam, valendo ressaltar Jorge Paz, na personagem Jorge. Visto que recursos financeiros não foram problema na produção, os critérios técnicos poderiam ser muito melhores, fotografia, cenografia, figurinos, edição e, especialmente, a música, que poderia ter se beneficiado das produzidas no período retratado.


#Marighella, um filme ficcional, com vieses históricos, com demais narrativas político-ideológicas que miram o cenário brasileiro corrente, coproduzido pela Globo Filmes, das Organizações Globo, que francamente e abertamente apoiaram o regime militar, mas que passou incólume pela dramaturgia. Um produto para indagações mil, um tanto longo demais, e bastante enfadonho.