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  • Fábio Ruiz

Free Guy: Assumindo o Controle – EUA – 2021



#FreeGuy seria um ótimo filme, não fosse extremamente imbuído das mensagens progressistas que Hollywood ama incutir em crianças e adolescentes. O texto transita em duas dimensões, o mundo real e o do videogame, com muita originalidade e organicidade, mas se perde ao, escancaradamente, promover mensagens das teorias identitárias. Você pode ser o que quiser, frase repetida literalmente algumas vezes no roteiro, inclusive um unicórnio, explicita seu proselitismo dentro do mundo virtual, o do jogo, permitindo miríades de possibilidades de identidades, entre de gênero e sexual, que, um pouco mais discretamente, são contempladas nas personagens mais estereotipadas. Entretanto, o próprio texto desqualifica toda a sua doutrinação ao a situar exclusivamente no plano do fantástico, no virtual, acabando por, sem querer, passar subliminarmente a mensagem de que “você pode ser o que quiser ou fazer o que quiser” seja possível apenas nas fantasias, pois no mundo real, como no do filme, há limites e limitações.


Outra ideia interessante, também utilizada em proselitismos, é a revolução dos NPC, “non-playable characters”, para pregar a luta de classes, destronando os mais fortes pelos mais fracos, também no mundo irreal, tirando toda a força de suas mensagens. Ideia, essa, que se utilizada em prol de uma boa estória, ao invés de catequeses, teria sido mais interessante.


A direção de Shawn Levy, mais experiente na televisão, é ótima, com enquadramentos e distanciamentos relevantes e oportunos. Entretanto, falha ao não controlar Ryan Reynolds, que faz mais do mesmo, com caras e bocas, extremamente canastrão, exibindo sempre sua dentadura de cavalo. Jodie Comer, brilhante, salva o produto e dá um show de interpretação em um filme de ação como poucos conseguem fazer. Ela transita entre as duas dimensões criando personagens diferenciadas sem as estereotipar. Joe Keery, de Stranger Things, faz um excelente trabalho com Jodie, mas tanto Lil Rel Howery e Taika Waititi descambam para o clichê, vulgarizando suas personagens, o primeiro extrapolando demais no mundo virtual, e o último abandonando a similitude no real. Efeitos especiais e fotografia se destacam entre os excelentes quesitos técnicos.


#FreeGuyAssumindoOControle, com potencial para um ótimo filme de ação, perde-se em proselitismos que não ecoam na maioria da população, a tônica corrente de Hollywood, infelizmente. Dá para se divertir.