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  • Fábio Ruiz

Buscando... – EUA – 2018

Atualizado: Ago 22


David Kim, viúvo de Pamela, é pai da adolescente Margot, uma menina estudiosa, que toca piano, e parece levar uma vida normal. Quando Margot desaparece, após avisar que viraria a noite em um grupo de estudos de biologia, David descobrirá novas facetas de sua personalidade. O roteiro de Aneesh Chaganty e Sev Ohanian é original, quando insere entre o espectador e a ficção, segundas câmeras, através das quais toda a ação é projetada, seja em telas de computadores, celulares ou imagens de segurança. Nada acontece que não seja intermediado por um desses dispositivos, estratificando a trama em diferentes visões. Inicialmente, sob o olhar de Pam, é mostrada, em velocidade, a história da família através de vídeos, fotos, mensagens e até e-mails, que revelam a sua doença. Ainda no segmento familiar, o olhar de Margot assume a narrativa, fazendo uso dos mesmos recursos, onde o calendário ganha distinção ao marcar o tempo e a evolução da doença de Pam, até a sua morte, desacelerando o ritmo para nos apresentar a trajetória da órfã Margot e de seu pai, David, que durante uma madrugada, na qual sua filha passaria fora, perde suas ligações para a descobrir desaparecida no dia seguinte, assumindo ele a condução dramatúrgica.

O texto ilustra, com perfeição, as intermediações da sociedade conectada a uma virtualidade, ao mesmo tempo fascinante e perigosa, mas que permeia nossas vidas, e nessas está, constantemente, presente, como a atmosfera que nos envolve. Contudo, para as mediações, há limites, e perdem a sua credibilidade ao sustentar a narrativa no ambiente virtual, quando o desparecimento de Margot ganha maiores dimensões, onde deixam de ser factíveis, e se esperava o seu abandono por uma visão sem filtros. Apesar de manter o olhar entreposto, consegue desenrolar a trama, que angaria reviravoltas dignas de novelas das oito, quando poderia ter um final mais original. A direção de Aneessh Chaganty, habilmente, constrói o quebra-cabeças virtual, ilustrando, com perfeição, o distanciamento do presente nas relações filha e pai, após a morte da mãe, revelando a David, através das redes sociais, que intensamente intermedeiam a trama, os seus afastamentos após enviuvar. Vale destacar o trabalho de contextualização cultural dos veículos midiáticos, que são apresentados em português, quando a língua articulada é o inglês.

John Cho, intermediado, capta e reverbera, com habilidade, as tensões e os conflitos, em ótima atuação. Debra Messing entrega elementos elusivos, antecipando uma das maiores reviravoltas dramatúrgicas; e o resto do elenco é funcional. A edição, excelente, é primordial no funcionamento da narrativa, sem a qual não teria êxito; a música contextualiza muito bem os diferentes blocos narrativos; a fotografia facilita a linguagem direcional; e cenários e figurinos colaboram com a ambientação virtual. Buscando... revela uma fotografia muito próxima de nossa contemporaneidade, onde parecemos viver mais na virtualidade, com todas as suas idiossincrasias, como a hipocrisia, a ausência, e a dependência de uma realidade quase etérea. Vale assistir. PS: Em cartaz.

TRAILER

#Análise #Hollywood #2018