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  • Fábio Ruiz

Como Nossos Pais – Brasil – 2017

Atualizado: Ago 17

Um sábado ou domingo qualquer, um almoço no quintal, uma moqueca para homenagear o genro, uma mãe, sua filha, seu filho, sua nora, o homenageado e seus netos, uma família reunida, um dia de sol? Comida boa, conversa afiada. Sem rodeios, mãe e filha, Clarice e Rosa – essa última a protagonista -, sogra e nora, marido e mulher, Dado e Rosa, intercalam-se não em cotidianas e naturais trocas de farpas familiares, mas em pesados confrontos abertos. Repentina, obvia e convenientemente, a chuva cai, sob o barulho dos trovões, refletindo a tempestade à mesa, expulsando todos para a cozinha, preconizando os conflitos porvir – apenas intercalada por uma pequena cena de Dado e suas filhas brincando na chuva sob os protestos de Rosa, sua mulher e mãe, mais um conflito. Sobremesa, mais conflitos, Rosa e Dado, que lava a louça, mãe e filha, que não quer deixar suas netas ficarem um pouco mais, mãe que censura filha por ser dura, filha que culpa mãe por sua dureza, mãe que revela que filha não é fruto de seu casamento, mas de um caso em um congresso em Cuba, trinta e oito anos atrás. Parece o começo perfeito para um drama familiar, um embate entre mãe e filha, um acerto de contas de um passado conturbado. Pausa para uma reflexão que será útil nessa análise. A menor unidade dramatúrgica é uma cena, ela tem começo, meio, fim, tem lugar e tem hora e, não por acaso, um objetivo. Toda cena está a serviço de uma trama maior, uma história, por mais breve ou longa que essa seja. As cenas elevam o patamar da história acentuando seu âmago até o seu clímax e posterior desfecho, delineando a narrativa de seu início ao fim e, conduzindo o leitor ou espectador por um caminho de reflexões e ações para ascender à uma moral, à uma fabulação, ou á uma lição. E, por mais que se queira fugir, transgredir ou negar, toda história tem uma. Cabe ao leitor a sua catarse e ao dramaturgo conduzi-lo até lá pelo fio narrativo. E, finalmente, uma história é tão crível quanto são, individualmente, as suas cenas. Dito isso, retomemos a análise. Mas, o que parecia um acerto de contas entre mãe e filha, rapidamente, desmembra-se em três conflitos completamente diferentes: o que parece ser inicialmente o fio condutor, o conhecimento de que não é filha de quem sempre acreditou que fosse; a crise no casamento de Rosa e Dado assombrado pela desconfiança de traição do marido; e, a crise existencial de Rosa, que em seu momento mais contundente, manda seu chefe às favas e decide seguir o sonho de ser dramaturga, que já perseguia pois foi esse o motivo que a levou à demissão em primeiro lugar. E, adiante, uma sucessão de cenas que tentam levar à três morais diferentes, alcançar três objetivos diferentes, conduzir o espectador à três catarses simultaneamente. O leitor, mal percebe, ou não percebe, que caminha por três trilhas distintas, alternando ora uma, ora outra, em uma sucessão de passos, ou seja, cenas, de impacto cômico ou dramático. Pausa: mais uma reflexão. Uma comédia não se trata de uma sucessão de cenas engraçadas, ou um drama, de cenas dramáticas, se essas não estiverem, como afirmado acima, a serviço da história, ou seja, se essas não estiverem conduzindo o espectador para o clímax e conclusão da trama, não o estiverem levando à catarse, por mais tocantes, contundentes, engraçadas, engajadas, esculachadas, bonitinhas, recheadas de frases de efeito, de lições de moral ou ditados que sejam. Retomemos novamente. O que se vê é uma sucessão de cenas de impacto tanto engraçadas, quanto bonitas, tocantes, engajadas, esculachadas e bonitinhas que tentam conduzir o espectador a três diferentes destinos. E, muitas, parece os levar a lugar algum. E, essa falta de direção suprime as cenas de estofo, perdendo, individualmente, a credibilidade. Cenas, entre outras, como a de Rosa, Dado e filhas em casa na qual a esposa desconhece totalmente que o marido irá viajar naquele momento, é difícil de engolir mesmo em um casal disfuncional, que uma esposa não saiba da viagem de seu marido ao menos na sua véspera. Ou, que, essa percebendo que o marido esqueceu algo em casa, decida correr à varanda de um andar alto para gritar por ele ao invés de usar o “whatsapp”, que tanto usou e usará em próximas cenas, para avisá-lo, ou, ao menos um telefonema, somente para justificar a protagonista ver seu marido entrar num taxi com uma colega em atitude suspeita; Ou, ouvir a mãe, uma mulher culta, comunicar a filha de sua doença dizendo: “câncer de pâncreas irreversível com graves sequelas”, A doença será fatal, que sequelas permanecerão além da morte? A frase, em si, não tem nexo ou faz sentido – na área médica, sequela é qualquer lesão anatômica ou funcional que permanece depois de completada a evolução clínica de uma doença, ou de um acidente traumático. Ou, não ver em Clarice quaisquer marcas de uma doença cruel mesmo às vésperas de morrer; Ou, ver uma cena de escritório, aparentemente, profissional em um tom palhaço jocoso surreal, difícil de imaginar mesmo em uma ficção. Ou, ver uma personagem quase bufona como seu pai em cenas engraçadíssimas, tocantes, mas vazias; Ou, cenas de efeito estético, que em nada adicionam à trama, ou, neste caso, às tramas, como o caminhar pelado de Rosa até a janela do hotel em Brasília. Ou, a calma surreal de Dado, marido de Rosa, quando essa viaja à Brasília sem avisar ou dar notícias. Ou, ver Rosa andando de cima para baixo com uma mala cheia de fantoches de seu pai, semiaberta, com bonecos saindo por todos os lados. Por que uma mala sempre meio aberta? Pausa, vamos analisar a mala. É comum roteiros usarem elementos físicos dramáticos que retomam ao leitor emoções das personagens ou que tem apelo emocional ou função dramatúrgica. Contudo, da mesma forma que as cenas estão à serviço da história, também deverão estar esses objetos. E a mala é um desses, um bom elemento, mas que é esvaziado e perde a sua potência e credulidade por estar sempre semiaberta com fantoches saindo por todos os lados. O espectador não é burro, já viu a mala uma vez, sabe o que tem dentro, é quase como não acreditar na sua inteligência ou capacidade de associação. Um mau uso desses elementos dramáticos é o pôster do congresso em Cuba onde Clarice engravidou de Rosa, visto tanto na casa da primeira quanto no escritório de seu ex-amante, o atual Ministro da Casa Civil, com quem nunca mais teve contato – que perde toda a sua intensidade dramática, pois é difícil de se convencer que, por mais significativo e intenso que tenha sido o caso entre os dois, que o Ministro da Casa Civil mantenha esse objeto em seu escritório, o escritório de um ministro, à vista de todos, quase gritando: olhem eu estou aqui. E, por último, o “All Star”, símbolo da submissão de Rosa aos homens, mas trataremos desse oportunamente. A comparação explícita entre Rosa e Nora, – dois nomes visualmente e sonoramente muito parecidos –, essa última protagonista de Henrik Ibsen, e também um elemento dramático de impacto, é ambiciosa demais tanto para a personagem, que almeja escrever uma continuação para uma das peças mais aclamadas de todos os tempos, quanto para os autores que comparam Rosa à Nora. Os dilemas de Nora são muito mais profundos, ligados à moral mais densa e constituinte do ser humano e aos seus sentimentos. Os de Rosa são superficiais, diz ser infeliz por não perseguir seu sonho de ser dramaturga, mas já o persegue. Parece se debater na dúvida de ter um caso ou não com Pedro, pai de uma colega de sua filha na escola, quando esse já está claro desde a primeira cena entre os dois. Se consome na dúvida se Dado, seu marido, tem uma amante ou não. Sua transgressão limita-se a tirar a blusa e seu sutiã em uma movimentada avenida paulista, enquanto Nora forja um documento, uma ofensa grave para a época, para salvar seu marido. A tentativa de elevar o tom dramático e chancelar a obra com uma comparação à Ibsen, simplesmente, não decola, mas é bonitinho e tem impacto. O espectador em três linhas dramatúrgicas diferentes acaba por se entreter e se impressionar entre tantas cenas e referências contundentes e de impacto, mas, ao mesmo tempo, permanece perdido na trama da qual o filme realmente trata. Vamos uma por uma. Seus dilemas existenciais parecem muito bem resolvidos: desde o início já a vemos trilhar o sonho de ser dramaturga; suas questões cotidianas, apesar dos pesares, insatisfações e tropeços, também. Consegue educar e criar duas filhas e dar conta das tarefas domésticas sem muita ajuda de seu marido; também desde seu primeiro encontro com Pedro, está claro a sua decisão de ter um caso com ele, ninguém duvida, mas mesmo assim somente a leva a cabo após sua mãe lhe confidenciar a libertação que traz a transgressão, como se essa lhe desse o aval para seguir seus próprios passos. O embate entre Rosa e Clarice existe somente durante um brevíssimo período, durante o qual a primeira deixa de falar com mãe, mas que dá lugar a uma relação conciliatória e redentora após Rosa descobrir que Clarice está morrendo. A única questão que vai e volta e permanece ao longo da trama – e parece se insinuar como o maior dilema de Rosa – é a se Dado está tendo um caso ou não com Silvana, uma colega antropóloga. E, a suspeita se confirma na cena em que Rosa joga o seu All Star – que usa em todas as cenas em que está vestida – no lixo, e na qual diz não mais acreditar mais em Dado. Seguem imediatamente as cenas finais, também de impacto, pois retomam uma disputa entre mãe e filha sobre uma bicicleta que, por sinal, para quem não percebeu, permaneceu o tempo inteiro na sala. O roteiro tem todos os elementos esperados para uma obra deste tipo, mas lhe falta o principal, uma espinha dorsal clara e definida, subjugando quaisquer outras. A direção busca o diferencial em suas tomadas e se esquece da máxima que simples é bonito. Algumas tomadas não parecem naturais e, em outras, vemos as mãos das personagens quase nos agredir na poltrona, mas, em geral, é boa. As atuações podem ser tão boas quanto a qualidade do texto. Quando o texto deixa de ser crível é nítida a incredulidade na entrega dos atores. Clarisse Abujamra é o grande destaque do elenco, mas vemos nitidamente maior qualidade na sua atuação silenciosa. É impressionante a sua expressividade. Maria Ribeiro está bem, mas longe de todo o burburinho que ouvi e li no cartaz do filme. Paulo Vilhena não consegue dar credulidade à personagem quando suas reações às pesadas palavras de Rosa são quase inertes. Reparem na cena em que Rosa lhe diz que se apaixonou por outro homem. O elenco infantil é fraco e compromete, pois, as personagens são significativas. Jorge Mautner, apesar de engraçado, atua mais com as mãos, chegando quase a ser descritivo. O resto do elenco não compromete, mas também não acrescenta, está no limiar, na fronteira, entre boas e más atuações. O cinema brasileiro se desenvolveu sob o guarda-chuva “Glauberiano” uma câmera na mão e uma idéia na cabeça e aprendeu que essa arte exige e cobra muito mais, pois é feita para o público em geral, e não somente para o especializado, o politizado ou o entendido. E, talvez, precise ainda despir-se da arrogância, não de Glauber ou de sua frase, mas a cultivada por muitos a partir dessa e do egoísmo ou egocentrismo artístico. Cineastas não fazem filmes para a autossatisfação ou para atender à uma agenda, mas para um público amplo, globalizado e faminto por histórias cativantes. Talvez, à “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, deva-se adicionar “e uma boa história no papel”, uma para o povo, não somente o brasileiro, mas mundial. Ainda precisamos aprender a contá-las. PS: Em cartaz.

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