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  • Fábio Ruiz

Identidade - Reino Unido - 2021


#Passing narra a estória de duas amigas negras de colegial, entre a terceira e quarta décadas do século passado em Nova Iorque, que se reencontram enquanto ambas fingem ser brancas por motivos diferentes. Rebeca Hall, que atuou nos filmes Vicky Christina Barcelona, e Um Dia de Chuva em Nova Iorque de Woody Allen, vai além de uma inspiração em seu diretor, que depois demonizou como pedófilo, e copia quase que integralmente o estilo de seu desafeto, tanto no texto, quanto na condução. O enredo tem, principalmente, elementos de Vicky Christina Barcelona e Match Point, mas guarda semelhanças com outras obras do diretor, os diálogos são esmerados e precisos, as cenas são justas, nem menores, nem maiores do que o necessário, entretanto carecem da sagacidade, da impetuosidade, da bravura e do atrevimento de Woody, e muito fica apenas subentendido, quando Allen teria, elegantemente, deixado claro. Além de um pastiche de Woody Allen, o texto se perde quando, desnecessariamente, engendra por diálogos que reforçam discursos dos progressistas americanos de racismo sistêmico, “critical race theory”, e do fracasso dos EUA, como nação, quando o enredo principal já carrega o suficiente nesse sentido para desenvolver a narrativa, que acaba trôpega por desviar de seu desenvolvimento para promover políticas, ideologias e narrativas.

A direção de Hall consegue ser uma cópia ainda mais explícita de Allen, desde os enquadramentos, os closes, o formato diferenciado, a opção pelo preto e branco, a inclusão de elementos de diferenciação como o saxofonista vizinho de Irene, mas na música o simulacro fica mais patente. O estilo musical, a inserção da música na dramaturgia para auxiliar a narrativa são quase idênticas as de Woody, só faltou usar o formato peculiar de apresentação dos créditos do diretor. Ruth Negga e Tessa Thompson estão fantásticas em seus papéis, não se podendo afirmar que se trata de resultado da condução ou do talento inato das atrizes. André Holland, Alexander Skarsgård e Bill Camp, excelentes, e o resto do elenco é muito bom.


#Identidade, título em português que reforça a temática das questões raciais e desvia ainda mais o espectador da trama principal, perde na originalidade por mimicar obras de Woody Allen, de quem Rebecca Hall participou ativamente da campanha de difamação, a quem, por mais incrível que pareça, copia descaradamente. Aparentemente, almejamos destruir aquilo que invejamos, mas Hall não chega aos pés de seu objeto de admiração. Pelo tema, pelo engajamento da diretora em campanhas de cancelamento, pelas ideologias identitárias será um grande candidato ao Oscar, mas merece apenas duas indicações, para as atrizes. Vale pela curiosidade.