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  • Fábio Ruiz

Beijos Escondidos – França – 2016



#BeijosEscondidosé um filme realizado para a televisão, mas, apesar de cinematograficamente característico, sua dramaturgia apresenta maturidade ímpar. Novato, em cidade do interior francês, Nathan vai a uma festa onde é fotografado beijando um outro rapaz, não identificado, tampouco o autor da foto, que vai parar nas redes sociais, deflagrando toda a sorte de circunstâncias, adversas ou não, relativas à exposição de sua sexualidade.


O roteiro, inteligente, aproveita-se dos mistérios em relação à foto, e relata os fatos da festa sob a visão de cada envolvido, conforme revelados, e expõe oportunamente a miríade de perspectivas que envolvem a questão: do autoconhecimento à autoaceitação, na perspectiva pessoal, dos duplos padrões, nas familiares, expondo a dicotomia entre como se imagina reagir diante da descoberta de um filho homossexual e de como, efetivamente, reage-se; e das políticas discentes e docentes, preocupados com a própria exposição quando já há um elemento exposto.



Jules Houplain, o Louis, e Bérenger Anceaux, o Nathan, fazem um belíssimo trabalho exibindo os sabores e dessabores de suas condições na medida certa, sabiamente, sem tangerem as idiossincrasias dos grupos representativos. Patrick Timsit, o Stéphane, pai de Nathan, Barbara Schultz, a Corinne, e Bruno Putzulu, o Bruno, pais de Louis, individualmente, ilustram reações distintas à descoberta da sexualidade de seus filhos, apresentando dificuldades até naqueles que se supõem mentes abertas. Os três concedem bastante humanidade às personagens. Catherine Jabob, em interpretação muito relevante, Nicolas Carpentier, e o ator que interpreta o diretor da escola, apresentam a perspectiva acadêmica, suas políticas, seus preconceitos, e seus papeis, e onde há certo didatismo, brilhantemente, introduzido através de sarcasmo em torno do termo proselitismo.


A direção é muito melhor do que a maioria para filmes televisivos, a música também, contextualizando os conflitos cênicos, a fotografia é típica para o veículo e também o roteiro na cena final, apesar de, inteligentemente, deixá-lo parcialmente aberto, com função dramatúrgica, pois certas pessoas precisam de mais tempo para se conciliar com a situação, e outras podem jamais fazê-lo. Um filme excelente, infelizmente desenvolvido para a TV, mas que acabou nas salas francesas, assistido por mais de quatro milhões de pessoas.#BaisersCachésé imperdível.



ps: inexplicavelmente, há duas referências ao Brasil no filme, cada uma próxima de um dos protagonistas, vale procurar. E há uma cena visualmente igual à cena inicial do filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho.


Disponível em VOD na Amazon Prime.