logo.png
  • Fábio Ruiz

A Casa Que Jack Construiu – Dinamarca – 2018

Atualizado: Ago 18


Um novo filme de Lars von Trier sempre permeará o polêmico, alguns mais, outros menos. A Casa Que Jack Construiu transita entre os extremos, o infame e o brilhante. Consensual é que não é fácil de assistir, muitos deixam a sala ao longo da projeção, repleto de metáforas e diálogos político-filosóficos, não tange o “politicamente correto”, e é demasiadamente violento, mas não necessariamente inferior ou ordinário.

Conduzido na discussão entre Jack e Verge, em voice over e com nuances confessionais, o primeiro reconta, em cinco incidentes, sua saga como “serial killer”, com mais de sessenta vítimas. Lars apresenta Jack – engenheiro que sonhou ser arquiteto, introduzindo uma das tensões e dualidades que permeará o texto, o construtor versus o artista, a construção versus a arte – que almeja construir uma casa, mas quando, um dia, em uma estrada, ajuda uma mulher, interpretada por Uma Thurman, irritante e abusiva, em diálogo que brinca com a homografia do termo “jack”, o nome da protagonista e o macaco para trocar pneus em inglês, após ser verbalmente vexado, Jack a mata com o “jack”, deslanchando a sua carreira.

Lars, apesar das crescentes crueldade e violência, mantém cúmplice, em todos os incidentes, a comédia, em meio à selvageria insurgente, como um catalizador crítico que seduz o espectador a compactuar com a barbárie, através do riso constrangido e comparsa, e o conduz pela evolução de Jack em um monstro, um ídolo, avocando outros atrozes e seus horrores, e situando – para repulsa de parte da crítica– diversos ditadores socialistas como Stalin, Mao e Fidel, no mesmo patamar hitleriano. Trier apresenta a hipocrisia, especialmente daqueles que deixam a sala de projeção, a apatia e, consequentemente, a sociedade cúmplice com a próspera violência, que escolhe não ver, ou se vê, se esquece em questão de segundos, após breve oposição, “politicamente correta”, geralmente expressada nas redes sociais, e aponta para a inevitabilidade de sua vitória e da aparição de um novo ídolo do mal, personificado ou não, em algum momento, em algum lugar do mundo.

Durante o quinto incidente, Jack abre uma porta, que nunca conseguia abrir, no frigorífico onde mantém os corpos, onde a protagonista, finalmente, constrói “sua casa”, onde Verge é corporificado, por Bruno Ganz, que o conduz pelos reinos do inferno, onde, inexoravelmente, o mal, uma última vez, intentará triunfar sobre o bem, e onde Trier evidencia, para quem ainda não havia percebido, a referência à Divina Comédia de Dante. Verge, sonoramente, lembra Virgil, ou Virgílio, poeta romano, que o conduz pelo purgatório e os reinos do inferno, em belíssima sequência.

Lars constrói, na gritante violência, textos e sequências interessantes, mórbidos e jocosos, conscientizadores da conivência apática, com inspirada direção. Matt Dillon está brilhante em sua melhor atuação, que, à custa da contenda que sempre envolve Lars von Trier, infelizmente, não será reconhecida. Todas as participações, Uma, Bruno, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Gråbøl e as crianças, e Riley Keough, são contundentes. Fotografia, efeitos especiais, edição e arte são excelentes e a música corrobora o escarnecedor, vide a dos créditos.

Extremamente violento, cruel, e, ao mesmo tempo, azedo, cínico e sarcástico, A Casa Que Jack Construiu aquinhoa culpabilidades, da sociedade, da polícia, do distanciamento, aludindo a Um Relato da Banalidade do Mal de Arendt, onde o “cumprir ordens” cede lugar à letargia humana, que a aparta da violência a menos quando essa bate à sua porta e adentra a sua casa, como visto no incidente quatro. Uma crítica e autocrítica de Lars, repleta de detalhes, sobre a qual muito mais pode ser discorrido. Vale ver, rever e refletir.

PS: Em cartaz.

TRAILER

#Dinamarca