O Artista do Desastre – EUA – 2017

13 Oct 2017

 



Meta, meta, meta! Metalinguagem, metacinema, metavida. Tudo sobre O Artista do Desastre é meta, mas para existir o meta, existe, antes, o The Room, o melhor pior filme da história, escrito, produzido, dirigido e estrelado por Tommy Wiseau, talvez, uma das personalidades mais singulares da indústria cinematográfica da atualidade. The Room, que não chegou às telas brasileiras, trata de... Trata de, bem, ninguém sabia, e talvez, ninguém até hoje saiba, mas, com certeza, muitos e muitos já o viram ou pelo menos ouviram falar desse filme peculiar. O Artista do Desastre não trata de The Room, produto finalizado, mas versa sobre o meta, versa de como esse foi concebido e realizado e, após concluído, de como foi recepcionado pelo público.

Greg é um jovem aspirante a ator com dificuldades para se soltar no palco. Tommy é Tommy, um homem do qual se desconhece a idade – mas que diz ter a idade de Greg, 19 anos, contudo, carrega pelo menos dez anos a mais –, com sotaque esquisito – que diz ser de Nova Orleans, mas que não tem qualquer similaridade com o dessa região –, tem dinheiro para gastar à vontade – mas que não revela a sua origem –, não admite perguntas sobre sua vida pessoal, frequenta as mesmas aulas de interpretação do primeiro, e que, sem pudores, apresenta uma cena, a mais esdrúxula, impossível, chamando a atenção de Greg, que o admira e anseia por sua coragem, seu despudor e sua desenvoltura no palco, mesmo que o que Tommy tivesse apresentado fosse uma loucura total. Greg propõe a Tommy fazerem uma cena juntos, e juntos caminham até hoje. Surgem, entre o “mauricinho” e o "vilão", a mais inesperada amizade entre duas pessoas, que não poderiam ser mais diferentes, e a promessa de estimularem um ao outro mesmo nos momentos mais sombrios.

Tommy convence Greg a se mudar com ele de São Francisco para Los Angeles, onde tem um apartamento. Fazem books, Greg assina com uma agente, mas ambos não conseguem trabalho. Greg quer desistir, mas Tommy, lembrando o amigo de sua promessa, ouve desse algo que lhe dá inspiração e ânimo: fazerem eles o próprio filme. E, neste ponto, começa a trama da qual O Artista do Desastre realmente trata, a aventura de se filmar The Room. Juntos, compram equipamentos, convencionais e digitais – estamos falando de 2001 e, nessa época, a era digital ainda não havia deslanchado –, quando o normal era usar apenas uma das duas tecnologias e alugar os equipamentos, contratam equipe, estúdio, elencam atores, filmam em ambiente caótico, concluem e lançam o filme dois anos depois.

O que faz O Arista do Desastre interessante, é ser um filme sobre outro, é ser metalinguagem, metacinema; é assistir ao dia à dia da equipe de produção, do fotógrafo, da figurinista, enfim, de todos que estão por trás e na frente das câmeras. E o que faz dele único, é estampar tudo isso dirigido por um excêntrico sem experiencia alguma e acompanhar os conflitos, diários e constantes, dos experientes com um novato rico e poderoso, muito bem ilustrados na cena da gravação da cena de sexo de The Room, na qual Tommy faz questão que se enquadre, bastante e em close, as suas nádegas. Tudo se torna hilário e tudo exorbita. É o famoso rir para não chorar.

Rir é o que se faz nas quase duas horas de projeção. É o metariso, se ri dentro e fora da tela, se ri sobre o riso. O roteiro é simples, uma história do início ao fim, sem saltos ou sobressaltos. O filme é metavida porque James Franco fez do seu processo de criação algo similar ao que se vê na tela, sem as excentricidades, espero eu. James, como Tommy Wiseau, dirige, produz e estrela o seu filme, apenas não escreveu o roteiro. Sua direção é firme. James estabelece um conceito distinto que contextualiza a época retratada, explora muito bem os atores e faz escolhas muito felizes em suas tomadas, além de estar excelente no papel de Tommy. James foge de tudo o que fez antes e nos apresenta um anti-herói, um pária, com grande maestria. É também metavida, porque trabalha com seu irmão mais novo, Dave, formando um par como Tommy e Greg, além de outros amigos. Talvez, até por isso, por ser metavida, que James tenha conseguido tirar o melhor de todo o elenco mas, principalmente, de Dave, que está notável, de seu amigo Seth Rogen, que está em sua atuação mais ímpar, e de Josh Hutcherson que está quase irreconhecível. O grande elenco ainda conta com participações especiais de Sharon Stone e Melanie Griffith, também retomando a metavida, pois são duas atrizes cujas carreiras são quase tão sui generis quanto a de Tommy Wiseau – que, como Greg Sestero, também faz parte do elenco –, ambas irreconhecíveis, difíceis de identificar na tela. Vale tentar. A arte é muito boa e a época é muito bem retomada; a fotografia e a música, muito bem escolhidas e realizadas; a edição, competente; e demais critérios técnicos não pecam.

O Artista do Desastre é metavida porque é, como The Room, um filme corajoso, mas não pioneiro, e singular, por versar sobre o cinema – objeto que, comumente, é visto com ceticismo e preconceito. E, finalmente, é metavida, porque será um sucesso, como, finalmente, acabou sendo The Room, que se tornou Cult – exibido muito habitualmente nas sessões de meia-noite –, se pagou, deu lucro e rendeu o livro de Greg, que deu origem ao roteiro. O Festival do Rio, muito sapientemente, embarcou na metalinguagem e exibiu o Artista do Desastre também à meia-noite. Foi uma experiencia, que rendeu muitos aplausos de todos ao final. Ainda sem data de estréia no grande circuito, fique atento para não perder. Vale à pena.

– Por Fábio Ruiz.

 

 

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