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  • Cardoso Júnior

Jovem Promissora - EUA – 2020


Sucesso absoluto no Festival de Sundance/2020, #PromisingYoungWoman é espetacular por tudo que é, por como é e por tudo que significa.

Escrito e dirigido por Emerald Fenell, esse thriller repleto de suspense e carregado de potentes emoções enfia o dedo na ferida da cultura do estupro, tão enraizado nas mentes machistas de maneira tão inteligente e sensacional que ouso dizer sem nenhum medo de errar que nunca antes uma abordagem original como essa foi apresentada pelo cinema.

Por certo o assunto é complexo e gerará inúmeras polêmicas, entretanto em um mundo onde a sociedade ainda pensa – mesmo que não diga abertamente - que a mulher, ao se expor a uma situação de vulnerabilidade estava ‘pedindo” para ser abusada – e exemplos não nos faltam – esse inusitado roteiro nos chega para expor de forma escancarada (sem nenhum exagero ou apelação) para, não mais apenas provocar apáticas reflexões e sim, para com um tapa na cara da sociedade, apresentar uma experiência sinestésica sobre comportamentos “normais” enraizados e suas consequências traumáticas para vítimas silenciosas e seus familiares.

Aqui, sinto-me impossibilitado de entrar nos pormenores dessa obra tão genial quanto importantíssima para não estragar a futura experiência de cada um, mas a mais que bem bolada inversão do predador, o pico de tensão progressivo do início ao fim por conta da trama simples mas costurada com precisão cirúrgica, quase didática que nos mantem estáticos diante de uma abordagem que nos promete ir por um caminho enquanto surpreende indo por outro super inesperado com salvadores respiros de humor sombrio.

Não há como falar desse roteiro inspiradíssimo sem creditar a Carey Mullingan – que sempre reputei uma das maiores atrizes britânicas – o devido mérito pela performance visceral na, até então, melhor e maior atuação de sua carreira encarnando uma desbalanceada justiceira heroína em busca não apenas de justiça, mas de catalisar em terceiros as dores de outrem.

O mais impressionante nesse cinema artístico que entrará para a história por seu genial e criativo enfoque que lida com tema tão indigesto sem cenas grotescas, mas ainda assim altamente desconfortáveis que levam a um clímax catártico sempre entremeado por um designer de som delicioso com enquadramentos e fotografia originalíssimos, configurando numa obra tão inédita quanto clássica, tornando-se uma joia exclusiva sobre como fazer um filme sobre injustiças e como repará-las trabalhando o velho jargão que diz: “Pimenta nos olhos do outro é refresco”.

Ou não mais ?

É pra ver, recomendar e nunca mais esquecer.