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  • Fábio Ruiz

Hamilton – EUA – 2020


Questões de diversas naturezas instigam #Hamilton, musical da Broadway, lançado para o cinema pela Disney. A primeira, e mais premente, é conceitual. Deveria ser considerada uma obra cinematográfica o registro audiovisual de peça teatral? Formule, leitor, uma possível sinopse para o produto, refletiu? Antes de entrar na dramaturgia, propriamente dita, as palavras “peça” ou “musical” possivelmente figuram em sua reflexão; a dramaturgia apresenta, exclusivamente, características teatrais, não há cinematográficas, configurando apenas um formato alternativo, e comercial, para um produto teatral.

Há também apropriações culturais, onde atores interpretam personagens de etnias diferentes das suas. Se motivadas por estéticas, há gostos, que jamais agradarão a gregos e a troianos, mas, se por motivações políticas, o mais provável, pois foi aclamado por sua diversidade, cabe outra reflexão: o que diriam as patrulhas “politicamente corretas” de qualquer produto onde se elencasse um ator branco para viver Martin Luther King? A resposta, certamente, evidenciará duplos padrões.


Concedendo o status cinematográfico ao produto, há em sua dramaturgia questões de apropriação histórica, pois não é um relato da história como tal, mas uma ficção nessa baseada, e muitas referências não podem ser levadas a sério, mas a estória é muito bem delineada, construindo uma trama e evoluindo seus conflitos e tensões com precisão até o seu desfecho, distinguindo muito bem o início do desenvolvimento, e esse da conclusão, uma coisa rara em musicais.

A direção de Thomas Kail é muito boa, mas, ocasionalmente, falha ao fechar planos para evidenciar uma ação, que acabam por excluir parte dessa para o público não presencial. Jonathan Groff é o grande destaque do elenco, e entrega interpretação hilária do Rei George. Lin-Manuel Miranda deixa extravasar emoções suas a reações do público, especialmente em excertos politizados, que não pertencem à personagem, e sua indicação ao Globo de Ouro aponta na direção de vieses políticos ou faltas de opções. O resto do elenco é proficiente para o teatro. A música, de Lin-Manuel, de hip-hop, passando pelo jazz e R&B, até o estilo de musicais, propriamente dito, é excelente, com letras perspicazes e rimas oportunas, mas, também, um tanto repetitiva, e sem nenhuma canção ícone, daquelas que o público se identificará e cantará pelas ruas, como Music of The Night, do Fantasma da Ópera. Demais técnicas são, teatralmente, de altíssimo padrão.


Hamilton, filme da Disney do musical da Broadway, com quase três horas de duração, que levanta questões, é um tanto cansativo na frente de uma tela, e perde muito do impacto presencial, mas é uma opção interessante para matar bastante tempo.




TRAILER


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