• Fábio Ruiz.

Se A Rua Beale Falasse – EUA – 2018


A adaptação do romance de James Baldwin, Se A Rua Beale Falasse, tem a fidedignidade narrativa como seu melhor ativo e seu pior passivo. Barry Jenkins respeita fielmente a de Baldwin que oscila entre a narradora-personagem, em primeira pessoa, Tish, e um ocasional narrador, onipotente e onipresente, em terceira pessoa, que se apresenta na ausência da primeira, a protagonista, que não apresenta nem onipresença ou onipotência, mas que, por algumas vezes, fala por Fonny, como se dele tivesse recebido o relato dos acontecimentos e Jenkins opera os mesmos modos narrativos.

A narrativa de Tish envolve não somente o seu relato dos acontecimentos, mas suas opiniões, seus julgamentos, suas aspirações, seus desejos, seus medos, enfim, suas razões e emoções, e Jenkins lança mão de “voice overs” da personagem para dar vazão ao que não é dito ou feito, e de imagens que retratam como ela descreve ver o mundo, especialmente, Fonny, tornando a narrativa um tanto morosa e cansativa. A trama de Baldwin é breve e simples, no presente ficcional Tish está grávida de Fonny, que está preso ​​por um crime que não cometeu. E entre os contratempos e dilemas da personagem, ela remonta sua história de amor com Fonny desde a infância, até a conclusão do conflito principal, a liberdade ou encarceramento de seu amado. Talvez, Barry tivesse mais sucesso se imprimisse mais dinâmica aos fatos, mais velocidade à trama, do que se aprofundar nas razões e emoções de Tish. E, realmente, o filme funciona melhor quando abre mão do lirismo, que vimos funcionar belissimamente em Moonlight, mas que, neste caso, procrastina a narrativa, vide o contraste entre a cena em que Tish e Fonny fazem amor pela primeira vez, que carece da beleza, um tanto explícita, que Baldwin concede ao momento, e a cena em que ela comunica à família de Fonny que está grávida que, repleta de conflitos e tensões reais, é mais interessante ao espectador.


A direção de Barry corrobora as decisões em seu roteiro, além de incluir, em duas ocasiões, imagens estáticas reais de ações policiais contra negros que generalizam e normatizam a crítica de Baldwin, como se a embutida no texto não fosse contundente para estabelecer o seu discurso, precisando de respaldo dessas para embasá-la, quando não é o caso. Barry remove também muito da humanidade das relações entre negros e brancos, por exemplo, na cena entre o Tish, sua mãe e o advogado, que é ceifada de parte relevante descrita no livro, que os aproxima para surpresa da narradora. Regina King é o maior nome do elenco em belíssima atuação, digna da indicação ao Oscar, mas não tão significativa para ganhá-lo, como, provavelmente, acontecerá. Stephan James está excelente como Fonny, distinguindo muito bem os conflitos dentro e fora da prisão. Já KiKi Layne, a Tish, não tem experiência para tal protagonismo e é incapaz de fomentar a empatia necessária com a protagonista. O resto do elenco é competente, destaque para Teyonah Parris, como Ernestine, irmã de Tish. Vale ressaltar as participações de Diego Luna, Finn Wittrock, Dave Franco, Pedro Pascal e do vilão, Ed Skrein. A música é excelente, mas adiciona morosidade ao lirismo, e demais critérios técnicos são ótimos.

#SeARuaBealeFalasse, romance de 1974 de James Baldwin, carrega em si uma crítica para o momento histórico de sua publicação, Barry Jenkins o encena jogando novas luzes nessa, quarenta e quatro anos depois, quando fatos da atualidade parecem inflamar suas justificativas novamente. Uma visão interessante. Em Cartaz. Annapurna Pictures #Annapurna#AnnapurnaPictures

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