• Fábio Ruiz.

Vice – EUA – 2018


Vice, acerca da vice-presidência de Dick Cheney nos governos George W. Bush, o filho, é um filme tanto brilhante, quanto difícil. É primordial perceber que não se trata de uma cinebiografia, talvez impossível, mas de uma ficção baseada em fatos reais do excerto considerado relevante para construir a narrativa. O roteiro de Adam McKay, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado por A Grande Aposta, principia com títulos sobre a tela preta com informações relevantes da personagem principal, do período pertinente e, por fim, informa tratar-se de uma história verídica, estabelecendo um paradigma imediatamente descontruído nas duas frases seguintes, que afirmam ser o relato tão fidedigno o quanto possível e que Dick Cheney é um homem elusivo. Reside, no jogo dramatúrgico de desconstrução do modelo estabelecido de veracidade, o brilhantismo do roteiro, pois uma cinebiografia, nos teores estipulados por McKay, certamente resultaria em processos judiciais.


Após os títulos contraditórios, Adam estabelece um narrador suspeito, que, sem se identificar inicialmente, diz ser algo próximo a um parente de Dick, mas sem firmeza, forjando-o no reino do duvidoso, carregando consigo para esse a assertividade narrativa. O texto é, nitidamente, dividido em duas partes, separadas por mais uma brincadeira do jogo que enfraquece o paradigma inicial. A primeira até o fim de sua atuação política no governo de George H. W. Bush, o pai, quando parte para iniciativa privada, trabalhando como CEO de uma empresa petrolífera, interrompida, precisamente, por uma ligação de George W. Bush com sinais de um convite para Cheney integrar a sua chapa, deslanchando a segunda parte.


Ainda recontada por esse narrador suspeito, que, esporadicamente, aparece em situações conexas, mas independentes do fio condutor de Dick, a segunda parte enfoca o processo de composição da chapa e o eleitoral, bem como a vice-presidência propriamente dita, criando personagens verídico-caricatas, no limiar da verossimilhança, para adentrar a seara hipotética comprometedora. Mais uma vez, introduz, na personagem de um garçom, um elemento fabular que oferece aos “quatro cavaleiros do apocalipse”, Dick, Donald Rumsfeld, David Addington e Antonin Scalia, um cardápio de ações controversas, entre elas a criação da prisão de Guantanamo, do qual Cheney pede todas as opções. A direção de Adam McKay é brilhante, corroborando com belíssimos planos, justos distanciamentos e interessantes sequências o deslocamento da realidade. A cena inicial entre Amy Adams e Christian Bale é uma aula de interpretação. Adams, muito mais que Bale, também excelente, brilha no papel de Lynne, esposa de Cheney, que o salva de si mesmo, sendo a grande mulher por trás do grande homem, em atuação fantástica. Sam Rockwell, irreconhecível como George W. Bush, e Steve Carell, o Donald Rumsfeld, abrilhantam ainda mais o elenco, composto por coadjuvantes competentes e de peso, destaques para Tyler Perry, o Colin Powell, e LisaGay Hamilton, a Condoleeza Rice. Os critérios técnicos são excelentes, com maior realce para o departamento de maquiagem que transforma, primorosamente, tanto Bale, quanto Adams.

Vice é difícil, pois além de não ser uma trama linear, possui personagens e momentos históricos ricos e diversos, que requerem do espectador muita atenção e conhecimento pregresso, sem os quais não perceberá que o filme é uma fábula, não para denegrir a imagem de Cheney ou dos republicanos, mas para criticar contundentemente a democracia americana e a participação política cidadã, especialmente no final, após revelar o narrador suspeito e confirmar a sua suspeição, quando Cheney rompe a quarta parede e fala ao espectador diretamente. A cena pós-créditos, no grupo de pesquisa de opinião, corrobora ainda mais a crítica, trazendo-a para a atualidade. Imperdível. Em Cartaz. Annapurna Pictures #Annapurna#AnnapurnaPictures

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