Yonlu – Brasil – 2018

13 Sep 2018

 

Yonlu, o adolescente Vinícius Gageiro Marques, artista, criativo e conturbado, suicida-se aos dezesseis anos, em 26 de julho de 2006, um dos primeiros suicídios assistidos pela internet no Brasil. Yonlu, o filme, tenta resgatar através de sua arte o contexto emocional que o levou a praticar o ato.

O roteiro de Hique Montanari abraça duas linhas narrativas, duas vozes, a do próprio Yonlu e a de seu psiquiatra. A primeira demonstra um grande esmero no estratificar da produção do adolescente, compondo um conjunto coeso que cria, contundentemente, um retrato do estado emocional da personagem, onde se percebe, progressiva e nitidamente, o agudizar de suas angústias até o seu suicídio. A segunda voz, de seu psiquiatra, que pouco figura na narrativa de Vinícius, apenas itera a tese de que Yonlu somente praticou o ato, porque encontrou, no momento decisivo, na internet, vozes que o empurraram, ao invés de mãos que o segurassem; e essa voz, impregna a primeira na forma de uma corte, ora provida, ora desprovida de faces, de identidades.

 A intrusão do discurso da segunda voz na primeira, não só a descaracteriza, como também a castra, ceifando o prisma de todas as cores, exceto uma, a tese de seu psiquiatra, que em assunto de tamanha gravidade, soa irresponsável a limitação, por mais que sua mensagem seja relevante, e sua conjectura, preocupante, posto que ninguém jamais conseguirá racionalizar ou precisar, com exatidão, a miríade circunstancial de sua decisão, cuja responsabilidade, parece ser transferida para a corte digital, quando essa é exclusiva de Yonlu.

A direção, também de Hique Montanari, é excelente, com criativas transições cênicas, intercalações entre a “realidade” e animações dos desenhos de Vinícius, belíssimos enquadramentos, e a sensível contextualização de Yonlu, como um astronauta solitário perdido na terra, ao encontro do suicídio, caracterizado como uma das personagens de seus desenhos. Apesar de interessante, vale questionar o quase total isolamento cênico da protagonista como mais uma marca de sua solitude ou a decisão de não aprofundar seus relacionamentos com o mundo, ou seja, família, amigos, colegas, professores, enquanto não se concebe suas influências inertes no seu martírio. 

 

Thalles Cabral como Yonlu, capta e reverbera com muita aptidão os conflitos da personagem, e o resto do elenco, quase desapercebido, sofre um pouco com os diálogos em inglês. A fotografia e arte são excelentes, bem como as animações. A música, em sua maioria composta pela personagem, cumpre perfeitamente o papel de contextualizar e a edição é memorável.

Um retrato da juventude na contemporaneidade, que, por um lado, instiga, cria e surpreende, mas, por outro, sofre, conforma-se e expõe-se em canais dos quais ainda pouco sabemos de suas reais influências. Vale assistir.

 

 

 

PS: Em cartaz.

 

 

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