Ferrugem – Brasil – 2018

2 Sep 2018

 

Tati é uma jovem adolescente na era das mídias sociais, adora fotografar e postar, mas, em uma excursão da escola, perde seu celular, e um vídeo íntimo seu e de seu ex-namorado é publicado no grupo de WhatsApp do colégio, levando-a ao limite.

O roteiro de Aly Muritiba e Jessica Candal, apesar da relevância e contundência do tema, que foram habilmente exploradas na série americana “13 Reasons Why”, é superficial, e tange, por diversas vezes, o inverossímil. A puerilidade é observada nas ações e conflitos sem lastro, que pouco, ou em nada, evoluem a curva dramatúrgica. As mais fáceis de identificar são as cenas de passagem temporal, e de coesão dramática entre duas cenas consecutivas, para lhes conferir sentido, mas que, se a anterior fosse concluída adequadamente, tornariam-se desnecessárias. E ambas abundam.

 

Aquelas que são dotadas de tensões, que geram conflitos, que propulsionam ações, são débeis, embarcando pungência sútil, e, timidamente, progridem a trama principal. A exemplo da cena da apresentação do trabalho de Tati e amigas, que carece de credibilidade. Por mais que os jovens de hoje não respeitem a autoridade do professor, conceder em que esse permaneça calado enquanto os alunos a ofendem, só vindo a reagir muito posteriormente, é difícil. Falta liga, a uma ação corresponde uma reação, e quando a última é retardada fere a organicidade dramatúrgica.

As ações e, principalmente, os diálogos, deveras rasos, são responsáveis pelas tangências à inverosimilidade, reparem que em muitas cenas se fala muito, pouco se diz, e o que é dito não parece crível. Desse cenário, decorre a pequena amplitude das personagens, que são quase monolíticas e pouco variam emocionalmente. Observe as personagens Tati, Renet, seu pai, Davi, e sua mãe Raquel, no início da trama e ao final e perceberá que pouco evoluíram, e aquelas que se transformam, o fazem em bases de conflitos mal elaborados, e também muitas vezes previsíveis, como a ação radical de Tati, como consequência do vazamento de seu vídeo.

 

A direção de Aly Muritiba, também fraca, tem enquadramentos questionáveis. A decisão de manter os pais de Tati fora das cenas, ou inertes nessas, é pueril e preguiçosa, pois estabelece a relação pais e filha apenas em termos de ausências e inercias, literais, que pouco valor dramatúrgico agregam à trama, contribuindo substancialmente para o débil embasamento das ações seguintes da protagonista, sendo somente superada pela escolha de trazer, desastradamente, a sua mãe, para uma cena já no final do filme. Reparem que até a entrada da personagem não é orgânica, mas artificial e apelativa.

Alguns paradoxos incomodam durante a projeção, em uma cena, já na casa de veraneio, as personagens tentam convencer Renet a ir à praia, quando, nitidamente, chove lá fora; as pichações no banheiro feminino da escola que, além de inverossímeis por serem extremas, é difícil crer que um colégio particular mantivesse suas paredes e espelho tão absurdamente sujos, também lembram o mural de uma pesquisa escolar sobre ofensas, de tão organizadamente dispostas que estão e tão bonitinhas que são; e a carta em letras garrafais, para que até o mais inepto dos espectadores perceba do que se trata, que Tati encontra na bolsa de sua mãe e lê. Não há nada pior do subestimar o público. As cenas de grupo, no aquário, na recepção do hotel e na brincadeira “eu nunca...” são confusas ao extremo e carecem de direção tanto a disposição das personagens, como as falas.

Não há qualquer destaque nas atuações, todas são tão superficiais e vazias quanto suas ações e palavras, e o são por tal conjuntura. Não há como criar personagens, se o texto não as concebe. As atuações ficam dependentes de caras e bocas, que não sustentam os conflitos cênicos.

 

A edição é fraquíssima apresentando cortes grosseiros, acentuados pela ausência de música. Vê-se cenas que vão do extremo silêncio a uma música alta, em um corte seco, além de confundir o espectador. Reparem na cena da brincadeira “eu nunca...”, no início do filme, quando ainda não conhecemos as personagens, que não existem referências físicas para algumas falas importantes, que parecem soltas no cenário; a arte é infantil, vide menções, mas também se observa descuido na escolha dos figurinos; a música, quase inexistente, contribui para agudizar as questões dramatúrgicas; e a fotografia é competente.

Causará espanto que esse ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado, o que pode indicar que a política ainda seja a principal baliza em suas escolhas, mais do que a qualidade, ou que, se esse for, realmente, o melhor da seleção, o cinema brasileiro encontra-se em maus lençóis.

 

 

 

 

PS: Em cartaz.

TRAILER

 

 

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