logo.png
  • Cardoso Júnior

O Retorno – Rússia -2003


O vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza é de uma densidade humana que chega a incomodar o expectador enquanto o envolve inexoravelmente em sua simples, porém, mais que complexa estória de três personagens abrindo espaços para inúmeras reflexões, conjecturas e analogias.


Ao desenvolver um plot muito pequeno partindo de um road- movie, ( um pai levando dois filhos num passeio), o roteiro se retroalimenta trabalhando sempre com a subjetividade para criar um grande e constrangedor mistério que prende o olhar do espectador que, logo no início, intui que nenhuma cena e nenhum diálogo ( que são poucos e fortes), acontecem gratuitamente sem um propósito bem maior que o imediato.

O inspiradíssimo diretor-roteirista Andrey Zvyagintsev, que já brindou o mundo com os premiadíssimos “Leviatã” (comentado em 29 janeiro 2015), e “Sem Amor” (comentado em 17 novembro 2017) aqui, já decupava personagens envoltos em relações mal resolvidas de forma contundente, com segurança e a autoridade de quem conhece o terreno inóspito das emoções reprimidas ao mesmo tempo em que impressiona com a exuberante e quase sempre úmida fotografia, valoriza os silêncios fazendo uma direção de atores que arranca interpretação naturalistas que beiram o indescritível.

O ritmo calmo do desenvolvimento ajuda na construção das tensões e os belos planos duram apenas o tempo de nos situar emocionalmente dentro das ações sempre trazendo novas informações ainda que nunca transite por revelações mantendo o pico de conflito em alta ampliado pela instigante trilha sonora que pontua o embate de vontades entre os três protagonistas – os confrontos- que, ao derivarem para uma gama de pequenos abusos e crueldades psíquicas acabam configurando-se em tragédia.

Assim, #Vozvrashcheniye, que começa pelos medos e desafios pertinentes a infância, evolui para um sombrio rito de passagem, para a construção de uma maturidade onde o desafio da masculinidade é levado ao extremo compondo uma implacável relação pai-e-filhos nunca orquestrada pelo cinema, onde o obscuro permanece enigma formatando um inquietante e amoral conto repleto de potentes alegorias e metáforas que o expectador levará consigo para além da obra e, para sempre.

Brilhante!




- Ps1: Disponível em VOD