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  • Fábio Ruiz

Nunca Raramente Às Vezes Sempre – EUA – 2020


#NeverRarelySometimesAlways conta uma simples estória carregada de proselitismos. O discurso principal não defende o direito ao aborto por uma menor de idade, que da Filadélfia vai à Nova Iorque, para interromper sua gravidez, excluindo todos do contexto, familiares e o progenitor, mas o leva sumariamente à cabo, sem questionamentos. O texto não envolve seus pais ou o pai da criança, não para não suscitar discussões morais, mas para deixar explícito que, nesse contexto, essas não há, além da decisão de uma adolescente de dezessete anos, que, não sendo maioridade, contemplaria também as mais jovens, desde que grávidas.

O texto também vem imbuído de um discurso subliminar cada vez mais frequente de demonização dos homens. Talvez, Autumn atraia SEMPRE homens basbaques, desde aqueles que a assediam até os que não têm boa vontade em ajudá-la, mas que a amostragem dela parece viciada ou, no mínimo enviesada, parece. O título se refere às possíveis respostas às perguntas da assistente social que apenas ratificam esse discurso, sem quaisquer corroborações factuais ficcionais, valendo-se apenas da palavra da protagonista para tecer o cenário.


Além disso, desqualifica ou radicaliza quaisquer grupos que apoiam alternativas ao aborto através do “erro” de cálculo do número de semanas de sua gestação e de religiosidades, enquanto aqueles que a suportam em seu objetivo são solicitos e profissionais; e não faz qualquer análise dos métodos para se cumprir a missão, como o desvio de dinheiro de seu trabalho por sua prima, e o jogo de sedução para conseguirem suas passagens de volta de mais um basbaque que cruzou os seus caminhos. Afinal, quem seriam os basbaques nesse cenário?

A condução da também autora, Eliza Hartman, é muito boa e consegue imbuir o produto final de narrativas subliminares que reforçam seus discursos. O elenco, desconhecido, funciona. A música se destaca entre os quesitos técnicos, a fotografia tonaliza decadência, idem cenografia e figurinos, e a edição é ótima.


Um texto delicado em diversos sentidos, mas, principalmente, na assertividade de seu proselitismo. Belicoso é o mundo atual e estimular narrativas que generalizam um grupo específico, parece por um lado perigoso, e, por outro, ajustado aos julgamentos sumários e levianos proferidos na internet. Uma opção para se refletir sobre a direção da humanidade.





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