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  • Cardoso Júnior

Adam – Marrocos – 2019


O representa do Marrocos no Oscar 2020, é uma deliciosa e profunda que mistura a perfeição um drama familiar com uma potente crônica social que, através de tocante e esmerado estudo de personagens, apresenta-nos duas mulheres em meio a uma cultura ancestral que promove a rivalidade feminina, acabam por se ajudarem mutuamente promovendo o rompimento de seus respectivos traumas ao mesmo tempo em que propicia ao expectador uma visão contemporânea do papel da mulher na sociedade marroquina e, por que não, no mundo atual.

Partindo de roteiro mais que enxuto, a diretora Maryam Touzani aposta na espetacular dinâmica entre duas personagens com personalidades e vivências muito distintas, para estabelecer (dentro do previsto, mas não de forma previsível), ondas de atração e repulsa entre elas de forma altamente verossímil de tal forma que, o pulsar de vida e o pesar da morte se encontram sob um mesmo teto servindo de combustível para a alternância das posições de comando dentro de um simples e ao mesmo tempo complexo embate cênico.

A excepcional dupla de atrizes (nem só de Hollywood vive o cinema), agigantam suas personagens através de interpretações magistrais muito bem aproveitadas pela segura câmera de Maryam que explora através de inúmeros close-ups a gama de sentimentos contidos e vividos até começar a abrir os enquadramentos a medida que essas mulheres vão se libertando interiormente de suas amarras. A câmera de mão também é um show à parte ao adentrar nas ruas, becos e vielas públicas reservadas aos homens, mas transitada apenas por mulheres combativas.

A separação dos espaços do masculino e do feminino é discreta, mas genial tal qual a relevância da elaboração mística da comida, a alquimia dos sabores misturada a paleta em tons pasteis, levemente amareladas, banhando ambientes e vestimentas até avivarem-se no segundo ato em cores mais quentes e saturadas.

Assim, o roteiro de #Adam que evita aprofundar em julgamentos morais num mundo onde “todos vigiam e falam de todos”, ainda conta com uma montagem precisa em seus cortes trabalhando muito bem a força empática da trama e personagens, pincela costumes locais regidos pela religião num mundo onde “Nada pertence às mulheres” configurando-se num trabalho delicado, repleto de sutilezas e onde a profusão de emoções nasce da dicotomia entre o enfrentamento e a superação.

Vale cada segundo de apreciação.





Ps1: Disponível em VOD