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  • Cardoso Júnior

A Pequena Menina Que Amava Fósforos – Canadá- 2017

Atualizado: há 4 dias


Essa é a prova cabal que para criar um excelente filme de terror e suspense não é necessário incluir alienígenas, monstros, bruxas e, tão pouco, pitadas de sobrenatural com jumpscares. Basta reunir seres humanos com suas insanidades para que a história se torne tão crível quanto dramaticamente horripilante sustentando o gênero de forma aterrorizante e, é lastimável que trabalhos assim, com potencial explícito a ponto de dar vários nós na boca do estomago, não recebam a divulgação e o marketing que fazem jus.

E é essa a obra que nos apresenta o diretor e roteirista, Simon Lavoie, indicada a sete prêmios no Festival de Toronto, incluindo Melhor filme, partindo de uma livre adaptação do romance de mesmo nome, que foca uma família disfuncional (pai e dois filhos adolescentes), vivendo em isolamento total numa casa inserida numa floresta canadense nos idos de 1930. E não, nenhum perigo advém da floresta que os cerca e tão pouco existem monstros nela espreitando para devorá-los. O mais genuíno e aterrorizante terror gótico mora dentro, dentro da casa, dentro das cabeças de seus ocupantes misturando o sentimental com o macabro em meio à loucura que permeia a ditadura de regras e costumes.

Filmado inteiramente em preto-e-branco artístico, adentramos num primeiro ato que levanta inúmeras e angustiantes perguntas no espectador pasmo com as situações e já irremediavelmente arrastado para dentro de tantos mistérios, mas à medida que o enredo se desenvolve, aos poucos, a bruma narrativa começa a dissipar com alguns lampejos elucidativos, mas nunca para alívio e sim para mais e mais tensão que mistura com maestria boas doses de ternura comovente com atrocidades próximas da barbárie que, curiosamente, nunca são produtos de maldade e sim, geradas por um enorme dano psíquico que excluiu conceitos de moral e ética.

Com um designer de produção irretocável favorecido constantemente pelos close-ups, pela fluidez da câmera de mão e pelos planos oblíquos que conversam e espelham a paleta de tons coadjuvante na estória com sua miríade de degrades e uma montagem fluida, acompanhamos com deslumbre visual o drama e a jornada de amadurecimento de nossa estranha, mas humana heroína, em sua liberação dos dogmas religiosos e a quebra da dominação machista a qual submetera-se por anos e, isso tudo, brilhantemente narrado com pouquíssimos diálogos. E para que diálogos se as imagens falam por si só?

Assim, “La petite fille qui aimait trop les allumettes” que ainda conta com uma interpretação arrebatadora da novata Marine Johnson, é um filme de terror sim, mas nem por isso deixa de ser uma história emocionante, exibida de forma ambiciosa e refinada ainda que composta de uma beleza tóxica que dificilmente será esquecida pelo expectador.

Para amantes do gênero, The Little Girl Who Was Too Fond of Matches, é um dos mais importantes filmes do gênero que, lamentavelmente, Hollywood sufoca com suas produções comerciais para cabeças menos afeitas ao verdadeiro cinema arte e mais voltadas para entretenimentos banais/ descartáveis... Mas, aqui, você terá uma experiência que te marcará para sempre!

TRAILER

#FestivalInternacionaldeCinemadeToronto #AméricadoNorte #Análise

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