• Fábio Ruiz.

Amor, Paris, Cinema – França – 2015


Amor, Paris, Cinema, ou Arnaud faz seu segundo filme, tradução literal do título em francês, chega às telas brasileiras com dois anos e meio de seu lançamento na França. O título em português é uma adaptação livre de seu original, baseado em seu conteúdo. Essas três palavras, individualmente, já insinuam prazer ao inconsciente coletivo. Se o filme, o segundo de Arnauld Viard, ao qual essas se referem, nos remeterá ao deleite, é outra história completamente diferente.

Arnaud e Chloé são um casal, ela tem quarenta e três anos, ele dois anos a mais. As suas trajetórias começam quando tentam ter um filho e Arnauld, ator e diretor, mais conhecido por sua participação em uma série da TV Francesa, está coberto em dívidas, dando aulas de interpretação para se sustentar e tenta viabilizar a produção de seu segundo filme. O leitor mais sagaz já pescou a idéia: o título original, Arnauld faz seu segundo filme, segundo filme de Arnauld Viard, nada mais é do que a história da realidade ou a realidade da história, ou seja, algum tipo de autobiografia metalinguística de Arnauld Viard fazendo um filme sobre Arnauld fazendo o seu segundo filme, tendo Arnauld Viard como protagonista em ambos.

A idéia é ousada e interessante, contudo arriscada e propensa a enveredar no abarcamento emocional de seu realizador e mergulhar no egocentrismo e sentimentalismo. Arnauld Viard, o real, tangencia a fronteira entre a arte e o piegas, ora de um lado, ora do outro, constantemente, durante a projeção. A passagem frequente entre o ofício e o sensível se acentua quando, além de Arnaud fazer de seu segundo filme um sobre ele mesmo fazendo seu segundo filme, o ficcional versando sobre um homem brocha, talvez até para não se expor explicitamente como tal, Arnauld Viard, o real, manifesta na personagem Arnauld, lúdica ou fantasticamente, sua disposição ou estado de espírito, psicanalisando-se no processo de realização, que pode ser observado na cena onde vê a sua mãe no trem. E a mescla de psicanálise e metalinguagem faz o brilhantismo da história se perder entre o romantismo e a alteridade.

A direção de Arnaud Viard não insere novos artifícios à ambição do roteiro e é muito tradicional, apesar da não convencionalidade da história. Viard também não demonstra bagagem para se autodirigir, por mais que sua personagem seja Arnaud Viard, o próprio, não menos é uma personagem e não menos exigente será, pelo contrário, a criação dessa merecia maior atenção para não tropeçar e tender às emoções. A fotografia não é das melhores, mas ainda se encaixa no padrão aceitável. A música é boa, o som e a arte não se destacam e a edição não é das melhores. A versão exibida no cinema não é de qualidade, observando-se manchas em algumas cenas, principalmente, nas monocrômicas. Irène Jacob faz um trabalho honesto com a personagem Chloé, companheira de Viard, mas não superior a muitos que já a vimos fazer. Louise Coldefy é a boa surpresa de um elenco que não se destaca.

Um diretor, em seu segundo filme, que versa sobre o próprio querendo fazer seu segundo filme – que se aproxima mais de uma autobiografia íntima –, para fazer um filme como este, deveria ter maior experiência e estofo. Contudo, apesar de sua ingenuidade e ambição, Arnauld Viard consegue entregar um filme que fará o espectador se envolver, se emocionar e se divertir. Um filme para uma tarde vazia de um fim de semana prolongado.

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