• Fábio Ruiz.

Uma Mulher Fantástica – Chile – 2017


Orlando e Marina são um casal. Em uma passagem por uma sauna – e, por favor, não visualizem uma sauna como as nossas, mas uma sauna chilena, mista, com lados individuais e separados, masculino e feminino. –, após receber uma massagem, Orlando toma um banho, se veste, vai trabalhar e à noite, vai à uma boate onde Marina canta. Chegam em casa, onde são recebidos por Diabla, a cachorrinha do casal, e onde terminam por fazer amor. Orlando acorda passando mal e Marina o acode e o prepara para ir ao hospital. No corredor, Marina dá falta das chaves e volta para pegá-las, Orlando termina por rolar as escadas e se ferir na cabeça. Marina dirige ao hospital, onde Orlando, após atendido, morre, vítima de um aneurisma.

Esse pode ser o começo para qualquer história, mas trata-se da história de Marina, um transexual, que após a notícia da morte de seu parceiro, sai do hospital, apressadamente, caminhando pelas ruas de Santiago. A princípio, apesar da questão da identidade de gênero de Marina, nada causa estranhamento – afinal, são tempos modernos e, mesmo sabendo que o preconceito existe, e que, para os intolerantes, o fato de Marina ser transexual, pode causar desconforto, ninguém se pode dizer surpreso com a mera possibilidade. –, até Marina ser reconduzida pela polícia ao hospital para responder a perguntas de médicos e policiais. Orlando ao cair das escadas, além de ter um corte na cabeça, tem hematomas em seu torso, tornando sua morte suspeita.

O espectador então descobre que Orlando já fora casado pelo menos duas vezes, com mulheres, e tem dois filhos, um adulto, outro ainda criança, filha de sua última esposa, Sonia, a quem abandonou para ficar com Marina. E, que, apenas seu irmão, para quem Marina comunica sua morte, fala em bons termos com sua atual companheira. O que se segue são os trâmites com a polícia que investiga uma morte suspeita e o ajuste de contas da ressentida família de Orlando com um transexual feminino.

Na perspectiva policial, nos é mostrado, imparcialmente, todo o despreparo, desconforto e um tanto de preconceito e desrespeito para se realizar procedimentos de rotina, como interrogar ou fazer o exame de corpo de delito, com um transexual ainda em transição, que seriam feitos muito mais naturalmente se Orlando estivesse em um relacionamento com uma mulher, ou até mesmo, com um homem. Marina enfrenta essas situações com visível desconforto, mas com a cabeça em pé, deixando transparecer somente para o espectador a violação de seu âmago, de sua alma.

Na familiar, Marina enfrenta o preconceito, acentuado pelo ressentimento da ex-mulher e do filho de Orlando, pelo abandono e escolha de seu ex-marido e pai, respectivamente, por uma relação com um transexual; a luta para ficar com Diabla, a cachorrinha que seu parceiro havia lhe dado, e para se despedir de seu amor, quando impedida por seus familiares. Marina é agredida verbal e até fisicamente em sua trajetória para reaver o que era seu e dar adeus à Orlando.

Entre tantas desventuras, em paralelo, percebe-se uma linha narrativa sutil, pois compõe-se apenas de uma cena, onde vemos Marina e seu professor de canto lírico – pai? –, em uma relação terna, indicando sua intenção em perseguir o sonho de ser cantora lírica. O que faz de Marina, fantástica, além de suas trajetórias, são cenas de seu imaginário, metáforas, em que vemos o seu estado emocional – como a que anda, quase na horizontal, contra um vento fortíssimo.

A história é muito simples e está a serviço do entendimento e da empatia com pessoas como Marina, no mundo real, que podem não trilhar o mesmo enredo, mas que, com certeza, compartilham dos mesmos revezes, entraves e preconceitos. O roteiro é muito bom, funcional e criativo. A cena do funeral, me pareceu desproporcional e um pouco inverossímil, seria melhor se fosse menos escandalosa. A direção é boa, deixou a desejar na cena em que Orlando cai e se machuca, uma cena importantíssima – o movimento não parece natural, ficando difícil acreditar que a personagem caminharia em direção às escadas, ao invés de colapsar verticalmente no chão. Talvez, tivesse se resolvido melhor, se Marina já o tivesse deixado no primeiro degrau. Daniela Vega é muito expressiva e concede à personagem extrema dignidade. Francisco Reyes está muito bem no papel de Orlando, tanto vivo, quanto morto. O resto do elenco é competente, nos permitindo perceber claramente todas as nuances nas situações das mais simples às mais intricadas. Os aspectos técnicos como som, edição, arte, música, figurino, etc. não se destacam, mas também não pecam, mas cumprem a sua função.

A ficcional Marina consegue se despedir de Orlando, reaver Diabla e realizar seu sonho de ser tornar uma cantora lírica. Contudo, ao mesmo tempo, nos deixa a reflexão sobre o futuro de uma atriz talentosa como Daniela Vega, depois que todo o burburinho sobre a questão da diversidade se esmaecer ou depois que o assunto estiver, em si mesmo, se esgotado. Vale refletir e, com certeza, vale assistir.

– Por Fábio Ruiz.

PS: Em cartaz.

TRAILER

#AméricadoSul #Análise

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