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  • Fábio Ruiz.

O Estranho Que Nós Amamos – EUA – 2017


Agora e então, 2017 e 1971 – curiosa a coincidência dos dois últimos dígitos do ano serem um o inverso do outro –, quarenta e seis anos separando o de agora do de então, O Estranho Que Nós Amamos, ambos uma adaptação para o cinema do romance de Thomas Cullinan. O de agora, sob a enorme sombra da premissa de que refilmagens são sempre inferiores aos originais – a comparação é inevitável –, sob a batuta de Sophia Coppola, parece sucumbir ao presságio mesmo antes desse se materializar. Ao tentar apropriar-se da história e fazê-la sua, fazê-la original, Sophia, talvez, tenha se rendido à máxima antes mesmo de gritar o primeiro “ação”. O de agora parece menor, parece esmaecer, desbotar, diante do de então. E, muito, deve-se ao fato de Sophia ter desenvolvido seu roteiro a partir do roteiro do original, o de então, do filme de Don Siegel, escrito por Albert Matlz e Irene Kamp, além do próprio romance. Uma coisa é partir do livro – que, infelizmente, não li por estar esgotado – rico, completo em suas nuances e sem limitações. Outra, completamente diferente, partir de um excerto, um olhar, um filtro de terceiros sobre o original. E, fazendo isso, Sophia limitou-se mais a fazer cortes, do que adaptações. E, das que foram feitas, a maioria é consequência imediata das reduções infringidas. A trama trata de um jogo de sedução, poder e sobrevivência. Cabo John McBurney, um “yankee” ferido, encontra-se, simultaneamente, paciente e prisioneiro, de sete mulheres, no de agora, e oito no de então, em uma escola para meninas confederadas na Virginia na turbulência da guerra civil americana. Quando todas deveriam entrega-lo aos seus soldados, McBurney encontra no jogo, na sedução e na artimanha, uma forma não ser entregue, preso e enviado à prisão de Fayette onde, provavelmente, morreria. Um jogo é tão excitante ou contagiante, quão maiores forem as suas apostas e Sophia, cortando personagens e passagens, as baixou significativamente. Vejam como. A escrava Hallie no de agora foi totalmente suprimida e, fazendo isso, Copolla abre mão da visão do escravo, do negro sobre a guerra e a situação em que se encontram. Hallie é uma peça primordial no xadrez de McBurney. Ele é um yankee, ela uma escrava. Ele, teoricamente, luta por sua liberdade mesmo que ela saiba que nenhum branco está genuinamente comprometido com a sua causa. E, com isso, Sophia perde expoentes de conflitos, entre Hallie e Miss Martha, a responsável pela escola, Hallie e as meninas, e o jogo de sedução entre Hallie e McBurney, que mesmo de raças diferentes, é insinuado no de então. Hallie ainda tem esperança de encontrar Ben, seu amor, que fugiu ao descobrir que seria vendido pelo irmão de Miss Martha. McBurney promete a ela o encontrar, caso essa o ajude a fugir: outra carta desperdiçada. O irmão de Miss Marta foi outro ceifado no roteiro de Coppola. E, com ele, as mais secretas nuances da personagem. Sua relação incestuosa com esse, sua prévia experiência sexual, sua saudade e necessidade de homens. O teor erótico e sensual da trama foi outro relegado, apesar dos olhares, das caras e das bocas entregarem o tom no de agora, não chega aos pés do de então. Sofia parece ter trilhado o caminho inverso, talvez para surpreender, quando muitas refilmagens aproveitam os dias atuais para acentuar ou até incluir sensualidade e erotismo em seus roteiros, Coppola os tirou, jogando no lixo tensões importantíssimas que justificam o desfecho da trama. Foram ceifados, além da relação incestuosa de Miss Martha: o estupro de Hallie pelo irmão de sua senhora; o beijo, com o qual McBurney presenteia e silencia Amy logo no início do filme e ela tem apenas doze anos de idade. Imaginem o clamor dessa cena; todos os “voice over” onde as mulheres entregam seus pensamentos e desejos mais pecaminosos, inclusive Amy; a sensualidade e libido extremamente acentuadas da personagem Carol; o sonho erótico de Miss Martha, na cama com McBurney e, também, Edwina, sua protegida, no qual as duas se beijam; e, finalmente, a breve cena erótica entre McBurney e Carol. Sem esses elementos, as ações de Miss Martha, Edwina, Carol e Amy após Carol e McBurney serem surpreendidos na cama, são esvaziadas, perdem a sua força, baixando as apostas consideravelmente. Outras nuances também foram eliminadas, lista-las faria este texto mais longo do que agradável, portanto serão omitidas, mas não tenham dúvidas, lá estão. A direção de Coppola é muito boa, mas também se baseia muito na de então, fato que me surpreendeu na abertura do filme. Duas tomadas descendentes sobre Amy, no de agora, acompanhada pelo assobio da personagem, mas que no de então era preenchida por uma canção, possivelmente, executada por Clint Eastwood. Colin Farrell está bem no papel de McBurney, mas Eastwood o supera pela ardileza e astúcia que o roteiro de Sophia eliminou. Nicole Kidman tem uma missão quase impossível, assumir o papel que um dia foi de Geraldine Page, possivelmente, uma das maiores atrizes americanas de todos os tempos. Não consegue alcança-la, mas não fica muito atrás. Kirsten Dunst e Elizabeth Hartman, até fisicamente, são parecidas, como são, também, suas atuações. Elle Fanning não chega aos pés de Jo Ann Harris, mas a última teve muito mais subsídios para trabalhar. Pamelyn Ferdin, de então, faz uma Amy muito mais interessante do que Oona Laurence, de agora. As outras não comprometem. Apesar dos pesares, Sophia Coppola entrega um filme lindo, visualmente e narrativamente, mas como o presságio diz: todo original é melhor do que a refilmagem.

– Por Fábio Ruiz

TRAILER

. PS: Em cartaz.

#Hollywood #Análise

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